quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A IRA DOS DEUSES

Estava no Rio de Janeiro, uma situação emergente quase me obrigou a permanecer na cidade. Liberado do compromisso, tomei rumo a serra. Cerca de dezenove e trinta horas, encontrava-me em casa. Ao chegar garoava em Teresópolis, após as medidas usuais, assisti aos telejornais e abri o computador. Passava da vinte e uma horas, quando a chuva apertou, e, confesso,fiquei preocupado com as suas consequências. O local em que passei a residir em meados do ano recém findo, fica na principal artéria da cidade, edifício sólido de quatro pavimentos superiores e dois inferiores, providos de bastante conforto e segurança. A periferia, embora tenham morros não muito distante, também julgamos confiáveis. No entanto, o acesso à cidade seja pela Rio-Bahia, como pela Teresópolis - Itaipava, e muitas áreas locais, são suscetíveis aos efeitos das intempéries, hajam vistas, situações pretéritas. Após meia-noite, recolhi-me ao leito, somente despertando lá pelas sete horas. Ao levantar-me o prenúncio de que as coisas não estavam bem: faltava energia elétrica. Resolvi continuar na cama, e depois de algumas elocubrações, busquei ler um livro. Cansado do ócio, levantei-me disposto a dar um bordejo à rua, para fazer o desjejum. A luz permanecia faltando, ao sair na recepção do prédio o porteiro, após cumprimentar-me, alertou-me que desde a madrugada fora cortada a energia elétrica devido a ruptura de uma barragem na localidade de CALEME. Neófito na cidade, agradeci, trocamos algumas impressões e saí à rua. Em frente a universidade, com seus alunos em férias, as lojas vizinhas, algumas fechadas outras as escuras com sua gente na rua. Os sinais de trânsito desligados, e, embora não chovesse, percebia-se o desalento geral. Na padaria, funcionando precariamente, mais parecia uma boite. Os restaurantes fechados, como farmácia e outros comércios.
Retornando à casa, pelo rádio de pilhas, sintonizei uma emissora local, ficando então sabendo das primeiras notícias da verdadeira catástrofe que assolou parte da cidade. A telefonia regular e celular também estava deixando a desejar. A energia foi restabelecida antes do meio dia e pela televisão passei a acompanhar as cenas dantescas, não só em Terê, como em Friburgo e Petrópolis. Realmente, até agora, a cada episódio, mais traumatizado com a odisseia com que a população se viu envolvida. A verdadeira tsunami não poupou prédios rústicos ou bem construídos, casebres ou mansões, pobres e ricos, contabilizam os mortos, feridos, desalojados e desamparados. As autoridades, como sempre, prometendo mundos e fundos, mas, certamente, na próxima catástrofe - oxalá eu esteja equivocado - voltarão à mídia com as mesmas desculpas esfarrapadas. As chuvas têm sido severa, entretanto, não se pode tapar o sol com a peneira: áreas inabitáveis, estão repletas de loteamentos irregulares em sua grande maioria; as margens dos rios, riachos e córregos, cheios de barracos e construções de alvenaria. As árvores cortadas, onde outrora, serviam como sustentáculo às fortes chuvas. O povo, como sempre solidário, prestando empícamente sua ajuda aos policiais, bombeiros e membros da defesa civil. As contribuições com donativos e espaços para abrigar os flagelados. Tudo com dantes, no quartel de Abrantes!  Nesses momentos de dificuldade e apreensão, conseguimos distinguir quem é quem. Desde o horário dos telejornais veiculados após o meio-dia, choveu telefones de familiares, clientes e amigos, ciosos da saber quanto a minha incolumidade. Graças à Deus, física e materialmente, estou muito bem! Contudo, psicologicamente, estou sentindo a dor do meu semelhante, impotente de reverter o quadro de agrura que a TV nos apresenta. Resignar-se que em outros estados e países, por chuva, gelo, sol, fogo, ou que outra maleficência esteja ocorrendo, é muito cômodo e inconsequente. Não resta dúvida, contra a força da natureza, o ser humano é frágil. Mas, acima de qualquer outro ser, nos foi dada a inteligência, e com ela, não fosse a pusilanimidade de nossas autoridades e imbecilidade de nossa sociedade, onde a vaidade e ganância falam mais alto, poderíamos muito fazer para evitar ou minimizar os ecos nefastos dessas ocorrências. Chorar o leite derramado, não retorna o líquido à vasilha. Precisamos, para ontem, rever conceitos, promover estudos sérios e céleres, senão, a cada janeiro, estaremos contabilizando novas vidas ceifadas. Não adiante questionar se se trata da ira dos deuses, carecemos de cumprir o nosso papel, e termos fé em Deus!

Nenhum comentário:

Postar um comentário